A sombra das árvores é uma das ferramentas mais eficazes de que as cidades dispõem para enfrentar o calor extremo. É barata, produz efeitos de imediato e torna as ruas realmente mais suportáveis para quem não tem alternativa senão circular nelas.
No entanto, um novo estudo concluiu que as metas generalizadas de plantação de árvores - centradas exclusivamente no aumento da cobertura verde - podem falhar o alvo.
Em determinadas situações, os projectos de arborização urbana podem, na realidade, fazer com que o calor húmido seja sentido de forma mais intensa.
A investigação foi realizada por cientistas do Instituto Indiano de Tecnologia de Gandhinagar (IITGN).
A equipa analisou 138 cidades indianas entre 2003 e 2020, abrangendo climas de savana tropical, estepe semiárida e subtropical húmido.
Como o corpo sente o calor
A maioria dos estudos sobre o calor urbano concentra-se na temperatura da superfície terrestre - ou seja, no aquecimento do solo.
Este estudo seguiu uma abordagem diferente, ao reconstituir o chamado Índice de Calor, que conjuga temperatura e humidade para reflectir a forma como o calor é efectivamente sentido pelo corpo humano.
Num dia húmido, uma temperatura de 35 °C pode ser sentida como 45 °C. A temperatura da superfície terrestre, por si só, não revela essa diferença.
Factores que influenciam o calor
Os investigadores criaram mapas do Índice de Calor, com uma resolução de um quilómetro, para as 138 cidades.
Recorreram a dados de satélite para medir a vegetação de três formas distintas: pela intensidade do verde, pela densidade foliar e pelo grau de actividade fisiológica da copa das árvores.
A equipa utilizou ainda dados de iluminação nocturna como indicador da densidade urbana e aplicou métodos de IA explicável para determinar que factores elevavam ou reduziam o Índice de Calor, bem como os limiares críticos envolvidos.
As árvores arrefecem as cidades através de dois mecanismos: a sombra e a evapotranspiração. A sombra é simples de entender - a copa bloqueia a radiação solar directa, mantendo mais frescos o solo e as pessoas que se encontram por baixo dela.
A evapotranspiração é o processo pelo qual as árvores libertam humidade para o ar; em condições secas, essa humidade evapora e transporta o calor consigo.
Humidade que fica retida
O problema é que os benefícios da evapotranspiração dependem em grande medida do contexto. No ar seco, a humidade libertada evapora-se eficazmente e o efeito de arrefecimento é acentuado.
Em bairros húmidos e densamente construídos, essa mesma humidade pode ficar retida junto ao solo, em vez de se dispersar.
O ar mantém-se pesado e quente. Assim, o Índice de Calor pode subir, mesmo quando a sombra proporciona um alívio imediato à escala da superfície.
Os investigadores observaram este efeito em todo o conjunto de dados. A cobertura vegetal e a estrutura da copa estavam associadas a um Índice de Calor mais baixo quando a intensidade do verde e a densidade foliar ultrapassavam determinados limiares.
Contudo, uma elevada actividade fisiológica da copa - árvores muito activas, que libertam grandes quantidades de humidade - esteve associada a um Índice de Calor mais alto em alguns contextos, sobretudo em zonas urbanas húmidas e compactas.
“A questão não é saber se as cidades devem tornar-se mais verdes. Devem. A questão é que tipo de vegetação, onde e em que quantidade”, afirmou Angara Borah, autor principal do estudo e investigador do IITGN.
“Nas cidades secas, a vegetação pode proporcionar fortes benefícios de arrefecimento. Nos bairros húmidos e compactos, os urbanistas também têm de considerar a circulação do ar e a acumulação de humidade.”
As metas universais não funcionam
A conclusão mais ampla do estudo é que encarar a cobertura verde como um único número a maximizar é uma abordagem demasiado simplista.
Uma cidade que cumpra a sua meta de plantação de árvores ao preencher bairros densos e húmidos com copas que libertam muita humidade poderá verificar que os residentes não ficam verdadeiramente mais frescos ou que, em termos de calor sentido, ficam numa situação pior do que antes.
“A arborização é essencial para a adaptação climática, e a sombra dá às pessoas um alívio imediato”, afirmou Udit Bhatia, autor sénior do estudo.
“Os nossos resultados mostram que as metas de plantação universais deixam de fora parte do problema. As cidades precisam de estratégias de arborização concebidas em conjunto para a sombra, a humidade e a ventilação.”
Isso implica considerar as árvores de sombra, os parques, as plantações junto às estradas, os espaços abertos e os corredores de ventilação como componentes de um sistema único, e não como intervenções independentes.
Nos bairros húmidos e densos, os pormenores tornam-se determinantes: as espécies seleccionadas, o espaçamento entre as copas, a poda das árvores e a orientação das ruas para permitir a circulação do ar.
Todos estes elementos afectam a quantidade de humidade que se acumula e a velocidade a que se dispersa.
Estratégias para apoiar as pessoas vulneráveis
A dimensão da equidade é relevante e merece ser claramente sublinhada.
As pessoas mais expostas ao calor perigoso nas cidades indianas - e nas cidades de todo o mundo - são geralmente as que vivem e trabalham em bairros densos, mal ventilados e com acesso limitado ao ar condicionado ou a outras opções de arrefecimento.
São precisamente estas as zonas onde uma arborização mal planeada pode oferecer menos alívio do que o esperado, ou até agravar o stress térmico.
Definir correctamente a estratégia de arborização nestes bairros não é um detalhe técnico.
É a diferença entre uma intervenção que ajuda efectivamente as pessoas mais vulneráveis e outra que parece positiva num painel de controlo de políticas públicas, mas que não as alcança.
Um quadro para a arborização urbana
Os investigadores fazem questão de salientar que o estudo trabalha à escala urbana, com uma resolução de um quilómetro.
A investigação ainda não fornece orientações ao nível de ruas individuais, da selecção de espécies ou de configurações específicas de plantação.
Esse grau de pormenor exige ligar os padrões à escala da cidade a dados mais detalhados sobre as ruas e as plantas - um trabalho que a equipa identifica como o passo lógico seguinte.
O que o estudo oferece é um quadro para pensar a arborização urbana consideravelmente mais útil do que uma meta única de cobertura.
Cidades num futuro mais quente
Num futuro mais quente e mais húmido, as cidades que conseguirem arrefecer de forma mais eficaz serão as que planearem cuidadosamente a sua infraestrutura verde.
A sombra, a gestão da humidade e a circulação do ar terão de funcionar em conjunto, em vez de serem tratadas como soluções separadas.
Além disso, estas decisões terão de ser adaptadas ao clima e à configuração específicos de cada bairro.
As cidades precisam de mais árvores, mas também das árvores certas nos locais certos, planeadas para funcionarem em conjunto e não como adições isoladas.
É uma meta mais difícil de definir do que uma percentagem de cobertura verde, mas, para as pessoas que enfrentam o verão a transpirar em bairros urbanos densos, é muito mais importante.
O estudo foi publicado na revista Nature Communications.






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