A empreitada, que permite “a água correr”, foi terminada três meses depois da rotura ocorrida a 11 de fevereiro, na sequência das intempéries de inverno. As cheias causaram impactos relevantes, entre os quais a rotura de um dique no leito central do Mondego. De acordo com a ministra do Ambiente, Maria da Graça Carvalho, a intervenção tornou possível reconstruir o segmento destruído do canal condutor geral e recuperar o revestimento de betão armado entre o ponto da rotura e o Açude de Coimbra, garantindo água em quantidade e com qualidade para as várias utilizações.
Em simultâneo, depois de uma primeira etapa de emergência, continuam os trabalhos estruturais nos diques. “Estão agora a avançar obras estruturais mais profundas”, explicou a ministra. Estes trabalhos abrangem a reconstrução das estruturas, da plataforma do canal e da estrada de manutenção, além da proteção de áreas sensíveis, incluindo a zona do viaduto da A1.
A empreitada prevê igualmente a recuperação do dique que colapsou e intervenções ao longo de aproximadamente 15 quilómetros do canal, destinadas a melhorar o escoamento. O investimento totaliza 14 milhões de euros até ao fim deste ano, aos quais se juntarão cinco milhões de euros previstos para 2027.
Obras no Mondego asseguram a campanha de rega
“A prioridade imediata foi assegurar a campanha de rega, numa região altamente dependente deste sistema”, disse ao Expresso o presidente da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), José Pimenta Machado. A partir de 2027, deverá avançar “um plano de manutenção regular do sistema, incluindo limpeza de vegetação e reforço estrutural”. Já a resolução do assoreamento deverá ser submetida a uma candidatura a fundos europeus.
10 sugestões na mesa, uma recusada
As obras atualmente em desenvolvimento seguem as conclusões do relatório técnico sobre as cheias de 2026, entregue esta sexta-feira à APA e à ministra do Ambiente pelo grupo de trabalho da Ordem dos Engenheiros.
Das dez recomendações apresentadas, uma propõe a criação de uma empresa pública responsável pela gestão de toda a bacia do Mondego, num modelo semelhante ao da EDIA no Alqueva. Contudo, o Governo descartou essa opção. Como alternativa, Maria da Graça Carvalho defende um regime de cogestão que reúna a APA, os decisores locais e os utilizadores diretos do sistema, como autarcas, agricultores e industriais. “Vamos tornar efetivo aquilo que se passou nos dias difíceis da crise”, afirmou, defendendo uma presença mais próxima e um acompanhamento permanente no terreno. O presidente da APA também salientou que, durante a crise, estas entidades “formaram uma verdadeira equipa”, uma lógica que o executivo pretende agora consolidar.
A ministra voltou também a enfatizar a necessidade de tornar mais simples a tramitação administrativa associada a intervenções deste género. “Criou-se um novelo de procedimentos, a complexidade é enorme”, declarou, defendendo o “aligeirar” dos mecanismos, em particular perante situações de emergência. “A manutenção tem que ser feita ao longo dos anos e ao longo dos dias, não é só antes das cheias”, acrescentou.
Barragem da Aguieira e barragem de Girabolhos em análise
Outras propostas do relatório tiveram uma receção mais favorável. Entre elas está a redução da cota máxima da barragem da Aguieira, para reforçar a capacidade de encaixe em cenários extremos. “Este inverno baixámos a cota para os 114,70 metros, como nunca se fez antes”, destacou Pimenta Machado. Para o futuro, considera que deve continuar a “baixar a cota para encaixar as cheias”, voltando a elevar os níveis durante o pico do verão.
Está também a ser ponderada a construção da barragem de Girabolhos, que poderá ajudar a atenuar as cheias, embora, como avisou o presidente da APA, “não haja risco zero”. A ministra anunciou que o projeto deverá ser lançado a concurso público até ao final de maio, faltando apenas terminar a recolha de dados pelos municípios envolvidos. Segundo Maria da Graça Carvalho, os autarcas defendem que a futura infraestrutura “contemple o abastecimento urbano, além dos restantes usos previstos”, estando essa vertente ainda a ser avaliada.
Ainda assim, a obra terá de passar por uma nova avaliação de impacte ambiental. Pimenta Machado acrescentou que a barragem “será para fins múltiplos e terá como principal objetivo amortecer cheias”. Ambientalistas, entre outros, têm alertado que esta barragem constitui uma falsa solução.
O relatório aconselha igualmente a rever a relação entre os diques e infraestruturas como a A1, após sucessivos colapsos na mesma área, bem como a avaliar os sistemas de drenagem e a eventual elevação dos diques. A gestão da vegetação nas margens do Mondego é outro tema em discussão. Os engenheiros defendem a retirada de árvores para favorecer o escoamento, mas outros especialistas avisam para os efeitos ambientais dessas operações. Pimenta Machado admite a controvérsia, mas afirma que o Baixo Mondego “é um sistema fortemente artificializado e orientado para fins agrícolas”.






Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário