As praias da Califórnia recebem milhões de visitantes todos os anos. No entanto, para muitas pessoas, chegar à linha de costa é muito mais difícil do que deveria ser.
Apesar das leis que asseguram o acesso público ao litoral, as barreiras físicas, os transportes insuficientes e as desigualdades de acesso continuam a afastar muitos californianos da areia.
Estes entraves vão além do custo do estacionamento ou da distância até à praia. Estão também ligados à cultura, à história, ao investimento e ao sentimento de pertença.
Mais do que um direito legal
A Lei Costeira da Califórnia celebra este ano o seu 50.º aniversário. Esta legislação consagrou o direito do público a aceder e desfrutar da costa da Califórnia, tornando-se numa das leis de protecção costeira mais robustas do país.
Ainda assim, os investigadores concluíram que muitas comunidades continuam excluídas dos benefícios que a costa pode proporcionar. O seu trabalho indica que as barreiras estruturais frequentemente impedem grupos historicamente marginalizados de usufruir dos espaços oceânicos.
Isto restringe o bem-estar e alimenta um ciclo que pode agravar a desigualdade e afectar a saúde pública. A equipa de investigação, liderada por cientistas da Universidade da Califórnia, Santa Cruz, e em colaboração com organizações de base comunitária, inquiriu quase 1.700 pessoas.
Os participantes foram contactados em lavandarias automáticas, eventos de bairro, mercados e pontos de acesso às praias. Parte dos inquéritos foi também realizada pela Internet.
Acesso desigual à costa
O estudo incidiu sobre zonas entre São Francisco e Ventura classificadas como desfavorecidas pela Agência de Protecção Ambiental da Califórnia.
Timothy Frawley, da Universidade da Califórnia, Santa Cruz, salientou que as diferenças são impossíveis de ignorar.
“Embora a Califórnia se orgulhe de ser um estado bastante diverso, é dolorosamente evidente para qualquer pessoa que tenha passado muito tempo na costa até que ponto estas zonas continuam segregadas”, afirmou Frawley.
“E são enormes as diferenças de recursos e infra-estruturas entre parques, áreas protegidas e praias junto de comunidades abastadas e aqueles situados junto de comunidades mais desfavorecidas ou mal servidas.”
“Esta divisão social tem um impacto enorme no tipo de actividades recreativas que as pessoas praticam e – algo particularmente relevante para a área da Baía de Monterey – nos percursos profissionais que consideram pertinentes.”
A importância de uma recepção acolhedora nas praias
Os investigadores verificaram que muitas comunidades indígenas, negras, racializadas e imigrantes mantêm relações diferentes com o oceano das que são contempladas pelas políticas tradicionais de conservação ocidentais.
O estudo chama igualmente a atenção para políticas de longa data, como a discriminação territorial no crédito à habitação, as práticas habitacionais discriminatórias e o investimento desigual nos bairros costeiros.
Essas decisões determinaram quem vivia perto da costa, quem a visitava com regularidade e quem criava ligações duradouras ao oceano.
Jillian Lyles, da Universidade de Stanford, explicou porque é que o acesso envolve muito mais do que os transportes.
“Quando as comunidades são excluídas dos espaços costeiros ao longo de gerações, não perdem apenas oportunidades recreativas”, afirmou Lyles.
“Perdem oportunidades de cultivar os tipos de relação com o oceano que promovem pertença, comunidade, identidade cultural e cuidado.”
O acesso como direito
Os investigadores defendem que a gestão costeira também reflecte quem tem participado tradicionalmente na tomada de decisões.
Segundo o estudo, os espaços ligados ao oceano, desde conferências de ciência marinha a comunidades de surf, continuam a ser dominados por homens brancos e elites costeiras.
Os autores sustentam que uma representação mais abrangente poderia melhorar tanto as decisões como a gestão responsável a longo prazo.
Investigação anterior sobre a gestão de recursos naturais apoia esta ideia. Vários estudos têm associado repetidamente a equidade a uma sustentabilidade mais sólida no longo prazo.
“Existe todo um corpo de investigação que demonstra que incluir pessoas diversas e os seus conhecimentos pode conduzir a soluções criativas para problemas difíceis”, afirmou o professor Corey Garza, da Universidade de Washington.
“Além disso, as pessoas podem envolver-se mais na gestão costeira e nos seus resultados quando vêem membros da sua própria comunidade a participar activamente no processo.”
Experiências diversas nas praias da Califórnia
O estudo identificou diferenças claras entre os pontos de acesso às praias que servem comunidades mais ricas e aqueles que ficam mais próximos de bairros com poucos recursos.
A Praia Estatal de Asilomar, perto de Pacific Grove, dispõe de passadiços, trilhos pedestres e uma presença regular de funcionários do parque.
Na Praia Estatal do Rio Salinas, os visitantes têm maior probabilidade de encontrar caixotes do lixo a transbordar, má qualidade da água e presença limitada de funcionários.
Segundo os investigadores, estas diferenças influenciam a frequência com que as pessoas visitam a costa.
Também podem determinar se encaram esses locais como espaços públicos acolhedores. O estudo concluiu ainda que o género pode moldar o acesso às actividades costeiras.
“Os participantes imigrantes dos nossos grupos de discussão explicaram que, nas suas culturas, as actividades ao ar livre e no oceano não são consideradas femininas nem adequadas para mulheres”, afirmou Emma Gee, da Universidade da Califórnia, Santa Cruz.
“Constatámos no nosso estudo, e podemos confirmá-lo através das nossas experiências vividas enquanto pessoas que frequentam o oceano, que actividades costeiras como o surf, a pesca e o mergulho também são dominadas por homens na Califórnia.”
Medidas para a mudança
Os investigadores consideram que alterações práticas nas políticas públicas poderiam reduzir muitas destas barreiras.
Entre as recomendações estão a redução das tarifas de estacionamento, a disponibilização de vales comunitários ou estacionamento gratuito e a expansão de transportes públicos acessíveis para as praias.
Defendem ainda o apoio à cogestão tribal das zonas costeiras, a realização de auditorias de equidade e a formação de equipas locais em competência cultural.
Nancy Faulstich, directora executiva da Regeneración, Acção Climática do Vale de Pajaro, afirmou que estes investimentos poderiam produzir um impacto significativo.
“Sem investimento direccionado e reformas políticas concebidas para equilibrar as condições e responder às necessidades e valores específicos das comunidades locais, muitas zonas oceânicas continuarão desconhecidas, subutilizadas e, por isso, subvalorizadas”, observou Faulstich.
“Durante anos, ouvi histórias de que, apesar de o ponto de acesso mais próximo ficar a menos de 20 minutos de carro, muitas pessoas em Watsonville nunca sequer foram à praia.”
Uma promessa por cumprir
A Califórnia é frequentemente reconhecida pela protecção da sua costa. Os investigadores argumentam que a conservação, por si só, não basta se o público não puder beneficiar plenamente desses locais protegidos.
“O estado da Califórnia tem algumas das protecções costeiras mais fortes de todo o país e até do mundo”, afirmou a professora Katherine Seto, da Universidade da Califórnia, Santa Cruz.
“Mas as promessas dessas políticas continuam por cumprir enquanto as desigualdades estruturais persistirem e criarem disparidades tão enormes na capacidade das pessoas beneficiarem da costa, em função do seu rendimento e da sua identidade.”
Os investigadores consideram que a experiência da Califórnia oferece também ensinamentos para lá do estado. A gentrificação costeira e o agravamento das disparidades de rendimento estão a afectar comunidades em muitas regiões dos Estados Unidos.
À medida que as cidades crescem e os preços dos imóveis junto à água aumentam, torna-se cada vez mais difícil ignorar as questões sobre o acesso equitativo à costa.
O estudo completo foi publicado na revista Nature Communications.






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