Jorge Sampaio, presidente da Câmara de Anadia, afirma que a construção de um novo acesso à A1 faz parte das negociações entre o Governo e a Brisa. No setor turístico, o município prepara-se para assumir a gestão do Parque da Curia, permitindo à empresa responsável concentrar recursos na requalificação das termas.
Há muito que, na Bairrada, se antecipava que Jorge Sampaio, de 54 anos e licenciado em Engenharia Civil, chegaria à presidência da Câmara Municipal de Anadia. O antigo vice-presidente venceu as eleições de outubro pelo PSD, o mesmo partido do Governo, interlocutor em quem deposita esperança para concretizar a ligação direta à A1, uma ambição antiga dos habitantes e das empresas do concelho.
O novo acesso à A1 - pedido pelos habitantes de Anadia, afastados dos nós da Mealhada e de Aveiro Sul devido ao trânsito no IC2 - vai mesmo avançar com o Governo do seu partido?
Temos dialogado com sucessivos Governos há muitos anos. Este Executivo já percebeu a importância deste nó. Estamos situados entre dois acessos que estão entre os mais afastados de toda a A1, com mais de 20 quilómetros a separá-los.
Acresce o congestionamento no IC2 e na EN325, que faz com que os 13 ou 14 quilómetros até aos nós da Mealhada e de Aveiro demorem mais de meia hora a percorrer. É por isso que exigimos este acesso há tantos anos: pela população e pelo tecido empresarial.
Em que ponto se encontra o processo?
O Governo está a renegociar a concessão com a Brisa e a informação de que dispomos indica que a criação deste nó integra essa negociação. Ficará próximo da zona industrial da Amoreira da Gândara, terá uma ligação direta ao IC2, junto ao Velódromo, e uma segunda ligação direta a Oliveira do Bairro, na zona industrial de Vila Verde. Desta vez, o nó de acesso à A1 em Anadia vai mesmo avançar.
Quando estará concluído?
É muito improvável que a obra fique concluída ainda durante este mandato, até 2029.
Habitação municipal e rendas acessíveis em Anadia
Na habitação, existe uma lista de espera extensa para habitação municipal ou com rendas acessíveis?
Temos um número significativo de pedidos, perto de uma centena. Contudo, vamos conseguir reduzir essa lista de forma relevante. Já entregámos habitações em Ancas e, até agosto, vamos concluir o projeto de Sangalhos, que inclui 21 fogos.
Estamos igualmente a negociar com o Estado a aquisição das antigas instalações das Finanças, em Anadia, para converter o edifício em habitação. Mas há outro problema...
Qual é esse problema?
As pessoas que não se encontram numa situação de maior carência, mas que pretendem viver em Anadia, não o conseguem fazer porque a oferta é escassa e os imóveis disponíveis têm preços muito elevados. Para incentivar os empreiteiros e demonstrar que é possível construir e vender a preços normais de mercado, vamos promover a construção de cerca de 20 apartamentos junto ao parque urbano.
A empreitada foi adjudicada a uma empresa que ficará responsável pela construção das casas, mas será o município a vendê-las a valores de mercado.
A Câmara pretende também converter antigas fábricas em habitação?
Temos algumas áreas que o PDM classifica como zonas económicas, destinadas à indústria, mas que se encontram abandonadas e sem propostas de utilização. Queremos dar-lhes um destino habitacional. Não se trata de construir casas em zonas industriais.
Dou um exemplo: a fábrica da antiga Sachs, que está degradada e constitui uma vergonha no centro de Anadia. Se ninguém quer aproveitar aquele local para fins industriais, porque não utilizar o espaço para habitação? Existem mais meia dúzia de casos semelhantes espalhados pelo concelho. É para isso que estamos a alterar o PDM.
Turismo na Curia, Parque e Termas
Falar de turismo é falar da Curia e das Termas. Não é uma pérola pouco aproveitada?
É, mas tanto o Parque como as Termas são privados, tal como o hotel que integra este núcleo e pertence à Sociedade Águas da Curia. Estamos a negociar com a empresa uma divisão de responsabilidades.
Durante um período alargado - estamos a avaliar se será de 10 ou 20 anos -, a Câmara assumirá a manutenção e a qualificação do Parque, tornando-o público. Em contrapartida, a empresa compromete-se a aplicar nas Termas e no Hotel as verbas que deixará de gastar no Parque. Esperamos alcançar um entendimento até setembro.
Tem defendido que o Hospital de Anadia, pertencente e gerido pela Misericórdia, deve integrar a Unidade Local de Saúde (ULS) da Região de Aveiro. Porquê?
O Hospital de Anadia já presta serviço ao Serviço Nacional de Saúde através de contratualizações. Porém, entendemos que pode disponibilizar mais serviços. Pode funcionar como uma âncora para o hospital de Aveiro, pois reúne excelentes condições logísticas para cirurgias, consultas e internamentos, que não estão a ser aproveitadas, enquanto Aveiro enfrenta falta de espaço.
Espero que a nova administração da ULS não desperdice o potencial do Hospital de Anadia. Sei que a Misericórdia aceita a proposta que estou a apresentar.
A Câmara prometeu apoio jurídico aos habitantes e empresas de Anadia que se considerem prejudicados pela linha de alta velocidade. Em que fase está esse processo?
A Câmara irá apoiar os nossos cidadãos, particulares e empresas - serão mais de uma centena - nas negociações com o Estado relativas à expropriação de terrenos e de casas que serão demolidas.
As negociações ainda não arrancaram, mas vão afetar uma enorme área de vinhas, nomeadamente na zona de São Lourenço do Bairro, uma das paisagens vitivinícolas mais relevantes e bonitas, que será atravessada por um viaduto da linha de alta velocidade.
O Centro de Investigação dos Espumantes vai avançar?
O espumante tem uma importância muito grande para nós, tanto económica como culturalmente. Temos dois projetos que resultam do diálogo com a Comissão Vitivinícola. O primeiro é o Centro de Investigação dos Espumantes; o segundo consiste numa incubadora de produtores de espumante.
Muitos pequenos produtores da região não dispõem de linha de produção, enchimento e rotulagem. A nossa intenção é criar um espaço, com uma gestão próxima do cooperativismo, equipado com essas máquinas e com apoio técnico destinado a esses pequenos produtores.
O Velódromo de Sangalhos está a cumprir os objetivos definidos quando foi inaugurado, em 2009?
Superou todas as expectativas. Todos os anos acolhe entre 8000 e 10000 atletas de alto rendimento, provenientes de 60 países. Se olharmos para as medalhas conquistadas por atletas que ali se prepararam - no ciclismo, na ginástica, no judo, entre outras modalidades -, só nos últimos Jogos Olímpicos "tivemos" três medalhas portuguesas.
No conjunto dessas Olimpíadas, os atletas que treinaram em Sangalhos conquistaram 17 medalhas. As receitas não são suficientes para cobrir os custos e registamos um défice anual de 200 mil euros, mas o impacto na economia local é muito superior. Cerca de 60% da nossa hotelaria depende do turismo desportivo. E quanto vale uma medalha olímpica? No ciclismo conquistámos duas; sem o Velódromo, não as teríamos.
A regionalização deve avançar?
Considero que devemos discutir uma reorganização do país. Não faz sentido que, em tantas áreas, as competências continuem repartidas por diversas entidades. Dou o exemplo do turismo.
Atualmente, só na Região Centro, temos o Turismo do Centro com competências, mas a promoção no estrangeiro é assegurada pela Agência de Turismo do Centro. Depois existem as CCDR, os municípios e as CIM. São cinco entidades com competências no turismo, que investem no setor e que, muitas vezes, aplicam recursos na mesma coisa para promover a mesma coisa, com linguagens diferentes e fundos que têm todos a mesma origem.
O que precisamos é de pôr ordem na casa. O processo de concentração dos serviços nas CCDR é o caminho certo.
Em que direção deve evoluir a lei das finanças locais?
Tem de ser revista. A transferência de competências para as Câmaras limitou-se a transferir responsabilidades do Estado para as autarquias, sem lhes atribuir capacidade de gestão nem meios suficientes. O próximo acordo tem de prever mais financiamento e novas funções de gestão.





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