Depois de passar onze meses a cuidar de idosos, uma hondurenha radicada perto de Madrid optou pela construção civil para voltar a controlar o seu dia a dia.
Aos 32 anos, esta trabalhadora deixou para trás as jornadas sem fim em casa de outras pessoas e trocou-as pelo som dos berbequins, pela argamassa e pela construção de paredes. A mudança de profissão foi exigente, mas é por ela descrita como uma libertação. Nas obras, recebe um salário regular, aprende diariamente e, acima de tudo, voltou a ter horários que lhe permitem estar presente para os seus familiares.
Onze meses de trabalho sem pausas verdadeiras
A sua chegada a Espanha seguiu um percurso comum entre mulheres que procuram emprego: o apoio domiciliário e o acompanhamento de pessoas idosas. É uma área com muita procura, impulsionada pelo envelhecimento da população. Quase dez milhões de habitantes do país têm atualmente mais de 65 anos, ao passo que mais de 1,7 milhão de pessoas têm reconhecimento oficial de situação de dependência.
Para esta trabalhadora nascida nas Honduras, a primeira experiência foi como empregada interna na casa da pessoa que acompanhava. Porém, o ritmo tornou-se rapidamente pesado. Conta que trabalhou durante onze meses consecutivos, de segunda-feira a domingo, sem dias de folga efetivos.
Não põe em causa a importância de acompanhar pessoas vulneráveis, mas relata um ritmo que lhe deixava pouquíssimo tempo para si própria.
Acabou por ser essa realidade a levá-la a procurar outro caminho. Pretendia um emprego diferente, com horários definidos e a possibilidade de contactar a família. A mãe continua a viver nas Honduras, e manter essa ligação teve um peso importante na sua decisão.
Os primeiros passos nas obras de construção civil
Nunca tinha utilizado ferramentas de construção antes de se instalar em Espanha. Começou por realizar pequenos trabalhos de pintura, seguindo-se outras oportunidades. Ao observar as equipas, fazer perguntas e aceitar tarefas diversificadas, foi ganhando confiança.
Mais tarde, uma empresa ofereceu-lhe uma função de ajudante de obra. Atualmente, divide o dia entre preparar argamassa, remover entulho, abrir vãos para portas e apoiar os trabalhadores qualificados. São tarefas fisicamente exigentes e muitas vezes sujas, que requerem igualmente rigor e atenção.
Um salário que aumenta com as horas trabalhadas
O seu salário-base mensal é de 1 200 €. Quando faz horas extraordinárias, a remuneração pode chegar aos 1 500 €. Fala deste valor sem esconder a dureza da profissão: carregar, deslocar, subir, descer e trabalhar no meio do pó exige muito do corpo todos os dias.
- Preparar as misturas necessárias para os trabalhos;
- Limpar e desimpedir as zonas de passagem;
- Transportar materiais e ferramentas;
- Colaborar em pequenas demolições e acabamentos;
- Cumprir as normas de segurança da obra.
Para ela, a grande mudança não está tanto no valor recebido, mas sim na forma como as semanas são organizadas. Trabalha de segunda a sexta-feira. Ao fim de semana, pode descansar, falar com os seus familiares e organizar a vida longe da obra.
«O trabalho é duro para o corpo, mas agora tenho horários e tempo para a minha família», explica.
Encontrar espaço num setor ainda muito masculino
A construção civil tem falta de mão de obra em várias especialidades, nomeadamente na alvenaria, pintura, instalações técnicas ou reabilitação. Apesar desta procura, as mulheres continuam a ser uma minoria nas obras. A sua entrada no setor ainda enfrenta, por vezes, preconceitos persistentes relacionados com a força física ou a capacidade de utilizar determinados equipamentos.
Esta operária afirma ter tido a sorte de trabalhar com colegas respeitadores. Destaca o papel da equipa, que a apoiou durante a aprendizagem e não admite comentários inadequados. O seu responsável valoriza a sua assiduidade e a vontade de cumprir as tarefas que lhe são atribuídas.
«As profissões pertencem a quem as escolhe»
A mensagem que deixa é simples: nenhuma profissão deveria estar reservada a um sexo. Numa obra, algumas tarefas exigem resistência física. Outras dependem da técnica, da organização, da destreza manual ou da atenção ao detalhe. As competências desenvolvem-se através da formação e da experiência.
Sublinha ainda um elemento menos visível: todos os dias surgem situações diferentes. Pode haver uma parede para refazer, uma divisão para esvaziar, um material para preparar ou um método novo para aprender. Essa diversidade evita-lhe a sensação de repetir continuamente os mesmos gestos.
Formação para alcançar a independência
Residente em Las Rozas, na região de Madrid, desloca-se de trotineta para as obras, procurando reduzir despesas e poupar tempo nas viagens. A sua ambição vai além da função atual. Quer frequentar formações, aprofundar as suas competências e, mais tarde, criar a própria atividade.
Na construção civil, a aprendizagem faz-se frequentemente pela combinação entre aulas e experiência prática. As formações podem abranger a leitura de plantas, os revestimentos, a segurança, a utilização de ferramentas específicas ou a gestão de uma pequena obra. Para quem pretende trabalhar por conta própria, perceber orçamentos, prazos e regras de seguro é tão importante como saber executar um trabalho.
A segurança, uma prioridade nas obras
A exigência física não deve ser encarada como algo normal ou inevitável. As dores lombares, os problemas musculares e os acidentes provocados por quedas estão entre os riscos do setor. É indispensável usar calçado adequado, capacete, luvas e, consoante as operações, proteção auditiva ou respiratória.
Os movimentos também fazem diferença. Erguer uma carga junto ao corpo, recorrer a um carrinho de mão para materiais pesados, alternar posições e comunicar uma dor persistente podem reduzir o desgaste físico. Para esta operária, o esforço continua a ser real, mas vem acompanhado de uma liberdade que antes não conhecia: a de escolher a profissão e construir um projeto à sua medida.





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