Saltar para o conteúdo
Notícias

ACEA pede ajustes ao Made in Europe do Industrial Accelerator Act

Homem a marcar pontos num mapa da Europa numa sala de escritório com vista urbana ao fundo.
Neste artigo
  1. Uma Europa alargada
  2. Os pedidos concretos
  3. Mais do que uma lei

Depois de a União Europeia (UE) apresentar a estratégia “Made in Europe”, incluída no Industrial Accelerator Act (Lei do Acelerador Industrial), que estabelece uma percentagem mínima de materiais e componentes de origem europeia nos novos automóveis fabricados no continente, a indústria automóvel reagiu com preocupação.

Para os construtores, trata-se de uma matéria especialmente delicada. As cadeias de abastecimento atuais são muito complexas e têm uma dimensão global, pelo que a introdução de quotas de conteúdo local poderá exigir uma reorganização profunda da produção, com custos avultados e sem assegurar ganhos de competitividade.

Perante este contexto, a ACEA (Associação Europeia de Fabricantes de Automóveis) divulgou um documento no qual volta a manifestar o apoio do setor aos objetivos da proposta: aumentar a competitividade da indústria europeia perante os concorrentes internacionais, reforçar a capacidade produtiva do continente, estimular a procura de tecnologias e produtos limpos produzidos na Europa e proteger uma das maiores bases industriais da União.

Ainda assim, a associação salienta que a redação atual da lei ameaça investimentos já efetuados e poderá enfraquecer a competitividade europeia numa fase decisiva.

Uma Europa alargada

Um dos aspetos centrais do documento está relacionado com a definição territorial do conceito Made in Europe. A ACEA sustenta que o Reino Unido - que continua fortemente ligado às cadeias de valor automóveis europeias, apesar do Brexit - deve receber o mesmo tratamento dos Estados-Membros da UE no enquadramento desta lei.

“Veículos, componentes e baterias produzidos no Reino Unido devem ter o mesmo status que aqueles produzidos na UE27 - com acesso igual a todos os instrumentos políticos”, pode ler-se. A mesma lógica deverá aplicar-se à Turquia e a Marrocos, países onde diversos fabricantes associados mantêm operações há vários anos, instaladas segundo as regras vigentes na altura.

A associação defende que estas unidades já existentes sejam abrangidas por uma cláusula de salvaguarda, limitada à capacidade instalada antes de uma data de corte a definir. Essa proteção deverá terminar caso exista uma alteração de proprietário, evitando assim possíveis abusos.

Os pedidos concretos

Com o objetivo de tornar a lei aplicável sem comprometer estruturas já instaladas, a ACEA apresentou várias exigências específicas aos legisladores europeus.

A primeira consiste na criação de incentivos credíveis que premiem a localização da produção. Para a associação, sem compensações financeiras, a obrigação de incorporar mais conteúdo europeu apenas aumentará os custos de fabrico, sem tornar a produção na Europa economicamente mais sustentável. Entre as propostas estão supercréditos no regulamento de CO₂ para automóveis e carrinhas elétricos produzidos localmente, bem como regimes de apoio financeiro.

A segunda prende-se com o método de medição do conteúdo europeu. O modelo em vigor contabiliza somente os componentes e deixa de fora o valor criado pelo próprio fabrico, incluindo investigação, engenharia avançada e trabalho especializado.

A ACEA sugere que o apuramento seja feito a partir do preço final do veículo, deduzindo apenas o valor gerado fora da Europa, de forma a representar com maior rigor o verdadeiro contributo europeu. “Um veículo é muito mais do que apenas as suas peças”, afirmou a associação.

Além disso, a entidade propõe um mecanismo simples de conformidade ao nível da frota: quando 70% dos veículos de um fabricante cumprirem os critérios Made in Europe num determinado ano, toda a frota terá acesso aos benefícios correspondentes no ano seguinte. Para este cálculo de frota, o âmbito territorial deverá limitar-se estritamente à UE27+EEA+Reino Unido, incluindo uma exceção para as operações já existentes em Marrocos e na Turquia.

As três exigências restantes concentram-se na execução concreta da lei: calendários realistas para localizar a produção de baterias e uma redução drástica das obrigações burocráticas, que acabam sempre por recair sobre os fabricantes, embora um automóvel possa integrar milhares de componentes fornecidos por outras empresas.

Por último, a associação pede que sejam reconhecidas as diferenças efetivas entre segmentos. Na perspetiva da ACEA, aplicar o mesmo tratamento a automóveis, carrinhas, camiões e autocarros constitui um erro: as necessidades de baterias dos veículos pesados, por exemplo, excederão toda a capacidade de produção europeia prevista até 2030.

Mais do que uma lei

A ACEA admite que o Industrial Accelerator Act, isoladamente, não resolverá as dificuldades de competitividade da Europa enquanto local de produção. Para esse efeito, será necessário prosseguir o trabalho sobre os custos da energia, os tempos de licenciamento, a falta de mão de obra qualificada e o investimento contínuo na produção de baterias.

A simplificação regulamentar - incluindo a revisão do enquadramento europeu de homologação de veículos, agendada para o próximo ano - é identificada como outro instrumento indispensável. “É fundamental que a Lei esteja firmemente associada a uma política industrial abrangente”, disse Sigrid de Vries, diretora-geral da ACEA.

Últimos artigos

Miguel Ângelo Carvalho

Miguel Ângelo Carvalho é especialista em materiais de construção e revestimentos cerâmicos, com mais de 15 anos de experiência no aconselhamento técnico para projetos residenciais e comerciais. Interessado em soluções duráveis, eficientes e esteticamente distintivas, acompanha de perto as tendências em tijolos, telhas, pavimentos e revestimentos para arquitetura e reabilitação.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário