Numa manhã húmida de outubro no sul da China, uma gigantesca cúpula de aço começou lentamente a erguer-se sobre um atarefado estaleiro de construção junto à costa.
A imagem parecia quase banal: uma grua em rotação, comunicações por rádio e engenheiros atentos aos monitores. Porém, sob o ritmo aparentemente sereno da operação, as ambições nucleares chinesas deram um passo muito concreto - e extremamente pesado.
O feito de 94 minutos da China em Lufeng
Em 18 de outubro de 2025, os trabalhadores da central nuclear de Lufeng, na província de Guangdong, içaram e instalaram em apenas 94 minutos uma cúpula de aço de 261 toneladas no topo de uma unidade de reator Hualong One. O componente tem cerca de 51 metros de diâmetro e 13 metros de altura, um volume aproximadamente equivalente ao de um prédio residencial de quatro andares.
A cúpula fecha a parte superior do edifício do reator e integra a estrutura de contenção que mantém a radiação confinada caso ocorra um acidente. Depois de instalada, «fecha» efetivamente o coração da central e indica que a construção civil alcançou uma fase avançada.
Uma cúpula de 261 toneladas alinhada e fixada em 94 minutos coloca Lufeng entre as mais rápidas instalações de cúpulas nucleares de grande escala alguma vez registadas.
Os engenheiros compararam a manobra a enfiar uma agulha com uma grua. A elevação tinha de avançar devagar, sob verificações contínuas, mas a margem para um posicionamento seguro era limitada. Qualquer desalinhamento relevante obrigaria a equipa a baixar novamente a cúpula, desperdiçando tempo e dinheiro preciosos e arriscando danos nos elementos estruturais.
Um projeto de dois reatores num complexo muito maior
A cúpula que bateu o recorde foi instalada na unidade 6 de Lufeng, um dos dois reatores Hualong One previstos para o local. Mas o projeto global está longe de ser pequeno. Quando estiver totalmente concluído, Lufeng deverá acolher seis reatores:
- duas unidades Hualong One (HPR1000), identificadas como unidades 5 e 6;
- quatro unidades CAP1000, baseadas no projeto AP1000 da Westinghouse.
Por enquanto, o par Hualong lidera o calendário. O betão da unidade 5 foi vertido no outono de 2022, seguindo-se a unidade 6 em 2023. Desde então, o local tem cumprido uma sequência rigorosa e quase coreografada: laje de fundação, paredes do edifício do reator, cúpula interna de betão, instalação de equipamento pesado e, agora, a cúpula exterior de aço.
A cúpula interna de betão foi colocada na primavera de 2024, criando a primeira barreira em redor do reator. A recém-instalada cúpula exterior remata essa estrutura e define a silhueta final do edifício que será reconhecido como a nave do reator.
Os responsáveis chineses apontam para o início da operação comercial das unidades Hualong por volta de 2028, condicionado pelos ensaios de comissionamento e pelas verificações regulatórias. Os restantes reatores CAP1000 avançam a um ritmo mais lento: dois receberam recentemente aprovação e dois aguardam ainda autorização formal.
Lufeng mostra como a China combina duas estratégias no mesmo local: um projeto de reator nacional e uma evolução licenciada de um modelo norte-americano.
Hualong One: o reator emblemático da China
Por trás do nome poético «Hualong» - frequentemente traduzido como «dragão resplandecente» - está uma peça estratégica de engenharia. O Hualong One, ou HPR1000, é um reator de água pressurizada de geração III, com uma potência elétrica de cerca de 1 150 megawatts. Essa capacidade pode abastecer mais de um milhão de lares chineses médios, consoante os padrões de consumo.
O projeto combina características de anteriores unidades chinesas CPR1000 com melhorias destinadas tanto à segurança como à atratividade para exportação. Utiliza vários sistemas de segurança redundantes, elementos de arrefecimento passivo e uma estrutura de dupla contenção que associa betão e aço. Os sistemas digitais de instrumentação e controlo monitorizam continuamente o reator, enquanto os sistemas de emergência dispõem de independência e diversidade adicionais.
Pequim vê o Hualong One como o seu cartão de visita nuclear no estrangeiro. Já estão em funcionamento duas unidades no Paquistão, e as empresas chinesas promovem ativamente o projeto na América Latina, no Médio Oriente e em partes da Europa. Cada instalação não serve apenas como central elétrica: funciona também como referência para futuros contratos de exportação e acordos de serviço.
Comparação com projetos concorrentes
A nível mundial, o Hualong One disputa espaço com vários outros projetos de geração III ou III+. Os números podem parecer semelhantes no papel, mas cada um segue uma filosofia própria:
| Reator | Origem | Tipo | Potência (MWe) | Contenção | Massa aproximada da cúpula | Primeira unidade em serviço |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Hualong One (HPR1000) | China | PWR | 1 150 | Dupla (betão + aço) | ~260 toneladas, ~51 m de diâmetro | 2021 (Fuqing 5) |
| CAP1000 | China (sob licença dos EUA) | PWR | 1 250 | Contenção simples de aço | ~660 toneladas, ~39 m de diâmetro | 2022 (Sanmen 1) |
| EPR | França / Alemanha | PWR | 1 650 | Dupla contenção muito espessa | ~320 toneladas, ~45 m de diâmetro | 2018 (Taishan 1) |
| AP1000 | Estados Unidos | PWR | 1 117 | Contenção de aço com cúpula semiesférica | ~600 toneladas | 2018 (Sanmen 1, China) |
| VVER-1200 | Rússia | PWR | 1 200 | Dupla contenção, norma russa | ~310 toneladas | 2016 (Novovoronezh 6) |
| APR-1400 | Coreia do Sul | PWR | 1 400 | Dupla contenção | ~270 toneladas | 2016 (Shin Kori 3) |
Sobressaem dois aspetos. Primeiro, o Hualong One posiciona-se a meio do grupo em termos de potência, mas mantém uma implantação relativamente compacta. Segundo, a massa da sua cúpula está entre as mais baixas quando comparada com alguns projetos ocidentais, o que ajuda a encurtar os calendários de construção sem abandonar o conceito de dupla contenção.
A grua capaz de elevar um Boeing
A grande estrela técnica do dia em Lufeng não foi o reator, mas a grua. O local recorreu a uma grua sobre rastos cuja capacidade de elevação é medida em milhares de toneladas. Em termos mais familiares, conseguiria levantar um Boeing 747 totalmente carregado; ainda assim, nesta operação, a precisão era mais importante do que a força bruta.
Para posicionar a cúpula, a equipa da grua rodou e baixou a carga através de pequenos ajustes medidos em milímetros. Os engenheiros dotaram o sistema de orientação dinâmica por laser, que acompanhava continuamente a posição exata da cúpula. Se o vento, a temperatura ou fatores mecânicos desviassem a estrutura de aço, os lasers transmitiam esse desvio a um sistema de controlo que o compensava em tempo real.
O desalinhamento admissível para a cúpula era inferior à espessura de um isqueiro típico, obrigando os operadores a tratar uma peça de 261 toneladas como se fosse vidro delicado.
Quando a cúpula ficou suspensa sobre a sua posição definitiva, técnicos instalados no edifício do reator vigiaram as folgas e transmitiram instruções passo a passo por rádio. Só depois de todos os apoios e pontos de ancoragem estarem alinhados é que a equipa baixou a estrutura até ao lugar, onde soldadores e montadores a fixaram posteriormente de forma permanente.
Porque é que a rapidez importa na construção nuclear
Poupar horas ou dias numa elevação de cúpula pode parecer um detalhe estético, mas altera a economia do projeto. A construção nuclear imobiliza milhares de milhões em betão, aço e mão de obra muito antes de a central gerar um cêntimo com a venda de eletricidade. Cada mês de atraso acrescenta custos de financiamento e pressiona a cadeia de abastecimento.
Procedimentos rápidos e repetíveis para «elevações críticas», como as de cúpulas de reatores e módulos de contenção, ajudam a reduzir estes riscos. A China tem investido fortemente nesta área, convertendo grandes complexos nucleares em linhas de montagem semi-industrializadas. As equipas deslocam-se de unidade em unidade, aplicando os mesmos métodos, ferramentas e verificações de qualidade, acumulando experiência e reduzindo imprevistos.
Esta abordagem contrasta com a Europa e a América do Norte, onde muitos projetos recentes enfrentaram derrapagens nos prazos e projetos únicos complexos. Ao normalizar os reatores e as etapas de construção, Pequim espera conter os custos por unidade e explorar essa vantagem tanto no mercado interno como no externo.
Parte de uma corrida nuclear mais ampla
O marco de Lufeng integra também uma competição mundial para definir a próxima vaga de tecnologia nuclear. Enquanto a China investe fortemente em grandes centrais de geração III, os Estados Unidos apoiam uma via paralela: os pequenos reatores modulares (SMR). Várias empresas norte-americanas apostam em reatores fabricados em fábrica, transportáveis por camião ou comboio, com planos para instalações capazes de produzir dezenas destas unidades por ano.
A Rússia, a Coreia do Sul e a França seguem estratégias próprias, desde unidades VVER-1200 prontas para exportação até frotas APR-1400 no Médio Oriente e projetos EPR na Europa e na Ásia. Cada país aposta que o seu projeto se transformará numa referência, assegurando décadas de contratos de combustível, trabalho de manutenção e acordos de formação.
A tecnologia nuclear funciona agora simultaneamente como infraestrutura e política externa, ligando os países anfitriões aos fornecedores durante toda a vida útil da central.
O que isto significa para a energia e o clima
O objetivo mais amplo da China vai além do orgulho de engenharia. O país enfrenta uma procura crescente de eletricidade, desafios de poluição atmosférica e compromissos climáticos. O carvão continua a dominar o seu cabaz elétrico, sobretudo nas províncias do interior. Grandes instalações nucleares costeiras, como Lufeng, ajudam a equilibrar este cenário ao fornecer capacidade de base estável e de baixo carbono junto de grandes polos industriais.
Cada reator à escala de gigawatts pode evitar milhões de toneladas de emissões de CO₂ ao longo da sua vida útil, quando comparado com produção equivalente a carvão, consoante a utilização da central e o combustível substituído. A produção nuclear também reduz a dependência de gás importado numa época de preços voláteis e tensão geopolítica.
A estratégia envolve contrapartidas. Construir vários reatores no mesmo local concentra o risco e exige um planeamento de emergência sólido, acesso robusto a água de arrefecimento e gestão de resíduos a longo prazo. As comunidades locais exigem frequentemente respostas claras sobre cenários de acidente e benefícios económicos, desde postos de trabalho à fiabilidade da rede elétrica.
Como funciona realmente uma cúpula de contenção
Para quem está fora do setor, a função da cúpula pode parecer quase simbólica, uma representação visual de que «isto é uma central nuclear». Na prática, desempenha uma função específica. A estrutura de contenção, incluindo a cúpula, constitui um invólucro resistente à pressão em redor do sistema de arrefecimento do reator. Se ocorrerem ruturas em tubagens ou danos no combustível, este invólucro impede que materiais radioativos se dispersem muito para lá do edifício.
Na configuração Hualong One, a estrutura interna de betão e a envolvente exterior de aço partilham esta função. As paredes espessas e armadas resistem a impactos e pressões. A cúpula de aço ajuda a gerir a expansão térmica e acrescenta uma barreira suplementar. Em situações anormais, os sistemas de tratamento de ar podem filtrar e ventilar, de forma controlada, o espaço entre as estruturas.
Várias opções de projeto influenciam o peso de uma cúpula: espessura das paredes, curvatura, integração com equipamentos de ventilação e tipo de reforço utilizado. Cúpulas mais pesadas suportam pressões superiores, mas exigem gruas maiores e períodos de instalação mais longos. As mais leves tornam a construção mais ágil, mas obrigam os engenheiros a validar cuidadosamente as respetivas margens de segurança.
O que acompanhar em Lufeng e para lá dela
A elevação da cúpula não encerra a história de Lufeng. A central ainda tem de concluir a instalação dos equipamentos internos, das tubagens e da cablagem, realizar testes extensivos e carregar o combustível. Os ensaios de ligação à rede ocorrem normalmente meses mais tarde, seguidos de uma longa série de testes de subida de potência para confirmar que todos os sistemas se comportam como previsto em diferentes estados de operação.
Os observadores acompanharão alguns indicadores essenciais nos próximos anos:
- a data efetiva de arranque das unidades Hualong de Lufeng face à meta de 2028;
- o intervalo entre a instalação da cúpula e o primeiro carregamento de combustível;
- se os reatores CAP1000 ganham impulso mais rapidamente agora que alguns já foram aprovados;
- de que forma as propostas de exportação chinesas usam o recorde de construção de Lufeng como argumento comercial.
Para profissionais da energia e decisores políticos, o local constitui um laboratório real sobre a forma como a normalização, as técnicas de elevação pesada e as ferramentas de orientação digital podem transformar a construção nuclear. Para os residentes locais, a atenção continuará centrada em questões concretas: emprego estável, ar mais limpo do que com o carvão e a realidade quotidiana de viver junto de uma das máquinas mais complexas construídas pela humanidade.






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