A maneira como se estrutura o solo urbano influencia decisivamente a qualidade de vida e a segurança dos habitantes, defende o especialista em urbanismo Vítor Oliveira.
As características ruas do Porto, marcadas por habitações de fachadas estreitas e lotes profundos, representam mais do que uma fórmula de ordenamento frequente no século XIX. O chamado "Plano Almadino", coordenado por João de Almada e Melo em 1784, organizou o crescimento da cidade para além da muralha medieval segundo uma lógica comum e constituiu também um modelo de comunidade.
"Havia um consumo de solo muito inteligente, muito racional, não era uma questão de gosto", observa Vítor Oliveira, investigador principal do Centro de Investigação do Território, Transportes e Ambiente (CITTA), da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP). Este modelo produziu efeitos no desenvolvimento económico e social.
Para Vítor Oliveira, a utilização dada ao solo "mostra muito o que é uma sociedade". O investigador publicou este ano o livro "No Chão de Nova Iorque: Denso, Diverso e Sustentável", cuja primeira experiência de trabalho teve lugar na cidade do Porto. "O que no livro chamo de chão da cidade são decisões que vão ter uma grande influência na questão da sustentabilidade ambiental e também da diversidade social e económica", acrescenta.
O chão da cidade do Porto
"A questão das parcelas é fundamental, porque decide se a cidade vai ser definida por grandes proprietários, que têm mais voz, mais influência; ou vai ser como era nos Almadas, embora não precise de ser com parcelas tão estreitas, ter um chão que permita mais agentes, com mais interesses, com mais diversidade", diz Vítor Oliveira. "Nestas opções do chão, tem vindo a perder-se a oportunidade de transformar o Porto numa cidade mais de todos, o que é particularmente preocupante numa cidade que, se não for por via administrativa, não tem como se expandir."
Num cenário de crise na habitação, o conjunto de gruas espalhado pelo Porto revela uma cidade em reconstrução, com obras em quase todas as ruas e alguns edifícios de volumetria inadequada. "Há uma maior sensibilidade para as alturas dos edifícios, que às vezes é justificada, mas não há nenhuma para o facto de um investidor comprar quatro ou cinco parcelas e construir um edifício com um volume que não tem nada a ver com o que está à volta", observa Vítor Oliveira, recordando que "depois é difícil resolver" quando se constrói um "mamarracho".
Construir em altura
Quanto à altura de alguns novos edifícios, Vítor Oliveira considera que "o planeamento" tem sido tratado "de uma forma simplista". Defende que o tema deveria ser "discutida um pouco mais racionalmente e menos com emoção" e sustenta que a construção de torres depende do lugar. "A definição das alturas deve ser adequada àquilo que é a rua onde queremos intervir", afirma, enquanto desenha uma rua larga com casas baixas. "Mau uso do espaço", diz. Embora a zona histórica fique de fora desta discussão, Vítor Oliveira entende que há áreas da cidade onde o crescimento em altura pode ser uma alternativa, sobretudo as "que têm estações de metro perto".
O docente separa o Porto em duas grandes áreas: o interior e o exterior da Via de Cintura Interna. Para lá da VCI existe "um vasto território" com "um grande espaço de expansão vertical da cidade". Na sua perspetiva, seria em zonas como a Boavista, fora da VCI, que se "podería melhorar-se a rede de espaço público, não permitindo que cada novo desenvolvimento tivesse de ser só acessível a um investidor russo ou israelita, ou seja, permitindo a mais agentes intervirem e terem mais estratégias para a cidade".
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Turismo. Falta debater perda de lojas
O debate sobre a saída de residentes da cidade é "mais apelativo", refere Vítor Oliveira, apesar de o Porto estar a ganhar população. De acordo com os censos, a cidade tinha 230 mil habitantes em 2021. "A perda das lojas, que não tem conseguido cativar tanta atenção, é absolutamente fundamental, porque é parte de nós que se perde", afirma, lamentando que o Porto esteja a "perdendo os estabelecimentos tradicionais" em benefício de lojas iguais às existentes em qualquer parte do mundo. "Pode ser que algumas pessoas queiram uma experiência igual à que têm em casa, mas é um turismo um pouco estranho. Não se ganha muito e prejudica-se a vida de tantas pessoas."
Trânsito. VCI cortou a cidade
"Todas as cidades com alguma complexidade, têm uma circular interna. A existência da VCI era uma inevitabilidade", admite Vítor Oliveira, embora critique o desenho daquela via. "Podia ter sido um bocadinho melhor porque há partes onde a VCI desligou muitas relações que foram sendo construídas ao longo de séculos, como esta relação entre Campolindo e largo da Igreja de Paranhos. De repente, é sobreposta uma infraestrutura pesada que não se adapta", diz.






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