A antiga Fábrica do Malhado, em Santo Tirso, ergue-se entre o leito do rio Ave e a Linha de Guimarães e está no centro de um conflito entre os proprietários do imóvel e a Câmara Municipal. As instalações encontram-se devolutas desde a falência da empresa têxtil, no final da década de 1990, mas a autarquia iniciou na semana passada a demolição total do edifício. A intervenção arrancou poucos dias depois de os donos terem pedido a reversão da expropriação iniciada em 2022. Ainda assim, o concurso público para a obra tinha sido lançado pelo município em dezembro de 2025.
A FXT - Fabrico e Acabamento de Meias, que comprou a massa falida da fábrica em 2007, apresentou no passado dia 7 um requerimento para reverter a expropriação. Ao JN, o gerente da empresa, José Carlos Barreira, indicou que a autarquia "tem 90 dias para responder".
Numa carta aberta enviada na sexta-feira ao presidente da Câmara de Santo Tirso, Alberto Costa, o responsável da FXT sustenta que, "até ao termo do prazo legalmente exigível por lei, a Câmara Municipal de Santo Tirso não promoveu a aplicação material do imóvel ao fim que fundamentou a expropriação".
Fábrica do Malhado no percurso das margens do Ave
Está em causa o prolongamento do percurso pedonal e ciclável das margens do Ave, que o município pretende estender até à Fábrica de Santo Thyrso, passando pela estação ferroviária. Esse traçado implica atravessar a antiga Fábrica do Malhado, que se foi desenvolvendo ao longo do rio Ave e começou a perder algumas parcelas a partir de 2004, quando foi construída a nova estação ferroviária.
Entretanto, a Câmara Municipal definiu o plano de requalificação das margens do rio, incluindo um percurso pedonal e ciclável na margem direita, entre a área do mosteiro e o parque urbano da Rabada. Para concretizar esse projeto, expropriou, "em 2010, o logradouro da fábrica".
O circuito, inaugurado no início de 2012, ficou interrompido junto à lateral da Fábrica do Malhado, onde foi criado o parque de estacionamento.
Fora de prazo
"A câmara tem a intenção de fazer a ligação do passeio pedonal e tinha dois anos para fazer as obras desde a notificação do tribunal [sobre a expropriação]. Devia tê-las começado até ao [passado] dia 15 de abril, mas não começou e, por isso, podemos pedir a reversão. Agora, [a autarquia] tem de entregar-me a fábrica e resolver o problema da passagem [nivelada sobre a linha, que a empresa criou junto à unidade]" e que foi bloqueada com o arranque dos trabalhos de demolição.
José Carlos Barreira acrescenta que a zona onde o município instalou as máquinas e começou a demolir, no lado voltado para o estacionamento da estação ferroviária, "não foi expropriado". Trata-se, segundo o gerente, do antigo acesso rodoviário à fábrica.
Processos judiciais em curso
Na carta aberta, que inclui um "pedido de reunião urgente" dirigido a Alberto Costa, o gerente da FXT recorda que decorrem dois processos judiciais. Um deles corre no Tribunal de Penafiel desde 2023, "com pedido de anulação do ato expropriativo de 2010 e consequente desmantelamento do passeio pedonal do lado nascente (margem direita do rio), uma vez que a câmara municipal recebeu do Governo permissão para a construção do passeio para a ligação da cidade à Fábrica de Santo Thyrso do lado poente (margem esquerda do rio), e não da margem direita".
Contactada pelo JN, a Câmara Municipal não prestou esclarecimentos sobre o caso. Contudo, num comunicado divulgado na semana passada, explica que a demolição, com um custo previsto de 150 mil euros, pretende criar "condições para desimpedir cerca de 160 metros da margem do rio e projetar a continuidade do percurso pedonal e ciclável até à estação ferroviária". Numa fase seguinte, será assegurada a "continuidade do percurso pedonal ao longo das margens do Ave até à Fábrica de Santo Thyrso".
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Avaliação
O gerente da FXT recorda que "em 2010 fizeram uma avaliação de 230 mil euros da fábrica, que tem 11 mil metros quadrados". A empresa recusou esse montante.
Projeto
"Antes da expropriação (2022), a empresa FXT, Lda tinha delineado para aquele edifício e para aquele espaço um projeto de reabilitação e valorização económica, assente na criação de um centro comercial temático, ligado ao lazer, desporto e saúde", lê-se na carta aberta.






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