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E se o futuro da mobilidade urbana tiver menos rodas?

Pessoa jovem de capacete e mochila circula numa trotinete elétrica numa faixa de peões numa cidade movimentada.
Neste artigo
  1. O elefante na sala
  2. O clima joga a favor dos motociclos em Portugal
  3. “Mas eu não sei andar de mota”
  4. E se forem mesmo necessárias quatro rodas?

Quando se discute o futuro da mobilidade, o debate desemboca quase sempre nos mesmos temas: automóveis elétricos, condução autónoma, cidades inteligentes e uma sucessão de siglas que promete solucionar todas as dificuldades dos transportes urbanos.

No entanto, tenho vindo a desviar a atenção para outro ponto do mapa: a Ásia. Quem passou por cidades como Hanói, Banguecoque, Jacarta ou Taipé compreenderá facilmente porquê. Em muitas partes do continente asiático, a mota não surge como alternativa ao automóvel; desempenha, na prática, a sua função.

Enquanto, por cá, oscilamos entre cidades dominadas por SUV elétricos e a visão utópica de uma sociedade urbana que se move quase apenas de bicicleta e transportes públicos, milhões de pessoas na Ásia usam diariamente scooters e motociclos. Fazem-no por um motivo muito simples: resultam.

Motas em Hanói

© Elliot Andrews / Unsplash - Esta rua fica em Hanói, no Vietname, mas poderia situar-se em muitas outras cidades asiáticas, ilustrando o peso dos motociclos na mobilidade local.

Ocupam menos área, têm custos reduzidos, estacionam-se sem dificuldade e atravessam o ambiente urbano com uma eficácia que qualquer automóvel, por mais moderno que seja, dificilmente consegue replicar.

Por vezes, questiono-me se não estaremos a tornar excessivamente complexa uma questão cuja solução existe há muitas décadas.

O elefante na sala

Uma parcela considerável dos automóveis que entra todos os dias nas nossas cidades leva apenas quem o conduz. Um veículo com mais de quatro metros de comprimento, bastante mais de uma tonelada e lugar para cinco pessoas serve, afinal, para transportar uma única pessoa entre o ponto A e o ponto B.

Nenhuma tecnologia torna este cenário verdadeiramente eficiente. Um motor elétrico contribui para isso, tal como um híbrido. No futuro, um combustível sintético poderá também dar uma ajuda.

Contudo, nenhuma destas soluções elimina o problema essencial: estamos a recorrer a demasiado veículo para levar demasiado pouco. É neste ponto que os veículos de duas rodas passam a fazer parte da discussão.

O clima joga a favor dos motociclos em Portugal

Portugal não é o Sudeste Asiático, é certo. Ainda assim, dispõe de um dos climas europeus mais favoráveis à utilização regular de motociclos e scooters.

Na maior parte do país, os dias de chuva intensa são poucos ao longo do ano. Por outro lado, as temperaturas raramente chegam aos extremos sentidos em muitos outros países europeus.

Apesar disso, continuamos a encarar a mota como um meio de transporte secundário, quase exclusivamente recreativo, quando poderia ser a resposta mais sensata para muitas deslocações quotidianas.

Não é adequada a todas as situações, nem a todas as pessoas. Mas será certamente útil para muito mais pessoas do que as que hoje a ponderam, sobretudo numa altura em que os automóveis se tornam cada vez mais caros.

“Mas eu não sei andar de mota”

Esta será, provavelmente, a objeção que mais vezes escuto - e é uma objeção legítima. Nem todos se sentem à vontade sobre duas rodas, nem todos desejam aprender. Ainda assim, também neste aspeto o mercado tem vindo a evoluir.

Peugeot Metropolis

© Peugeot - A Peugeot Metropolis promete conjugar a estabilidade adicional das três rodas com a agilidade de uma scooter no trânsito.

Modelos de três rodas, como a Yamaha Tricity e a Peugeot Metropolis, mostraram que há lugar para soluções intermédias. Proporcionam mais estabilidade, transmitem confiança a quem começa e diminuem de forma significativa algumas das barreiras de entrada no universo das motas.

E se forem mesmo necessárias quatro rodas?

Nem toda a gente aceita abdicar do conforto suplementar de um habitáculo, e compreendo essa opção. Não é propriamente agradável chegar ao trabalho depois de uma manhã fria ou de um aguaceiro inesperado.

Também para essas circunstâncias começam a aparecer opções interessantes. Os quadriciclos modernos ocupam menos espaço do que um automóvel convencional, requerem menos energia e asseguram uma proteção muito superior à de uma mota.

FIAT Topolino

© FIAT - Talvez tenha chegado o momento de deixar de considerar os quadriciclos apenas soluções destinadas a adolescentes e idosos, passando a vê-los como uma alternativa aos automóveis convencionais no meio urbano.

Não são perfeitos, nem têm essa ambição. Mas respondem a uma pergunta relevante: será realmente necessário um automóvel tradicional para todas as deslocações urbanas?

É por isso que encaro positivamente a criação da nova categoria europeia M1E. Está ainda longe de constituir uma revolução, mas transmite um sinal importante: Bruxelas começa finalmente a admitir que há espaço entre a mota e o automóvel tradicional.

E poderá ser precisamente nesse espaço que reside uma parte relevante do futuro da mobilidade urbana.

Ouça o episódio: «CARROS MAIS BARATOS. Novo PLANO Europeu para TRAVAR A CHINA»

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Miguel Ângelo Carvalho

Miguel Ângelo Carvalho é especialista em materiais de construção e revestimentos cerâmicos, com mais de 15 anos de experiência no aconselhamento técnico para projetos residenciais e comerciais. Interessado em soluções duráveis, eficientes e esteticamente distintivas, acompanha de perto as tendências em tijolos, telhas, pavimentos e revestimentos para arquitetura e reabilitação.

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