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A torre de 1km da Arábia Saudita e a obsessão pelos arranha-céus

Arquiteto a analisar maquete de arranha-céus e conjunto urbano em escritório com janela grande e plantas.
Neste artigo
  1. Quando a altura se torna um vício
  2. Como olhar para lá das imagens promocionais
  3. A alternativa discreta a um pico de ego de 1km

O taxista semicerrra os olhos para a linha do horizonte, tamborila no volante e limita-se a dizer: «Mais alto. Eles querem sempre mais alto.»

Avançamos a passo de caracol no trânsito do fim da tarde, com areia suspensa no ar e gruas no horizonte. Para lá de uma fila de torres inacabadas, aponta para uma silhueta distante, perdida na névoa, onde se prevê que suba o mítico arranha-céus de 1km da Arábia Saudita - destinado a fazer o Burj Khalifa do Dubai e a Shanghai Tower parecerem meros esboços de aquecimento. Nos painéis publicitários, as imagens parecem saídas de ficção científica: carros voadores, parques suspensos e uma agulha de vidro a perfurar as nuvens. Ao nível da rua, há pó, barulho e relatos de horas extraordinárias por pagar.

Ri-se e acrescenta, em voz baixa: «Mas para quem é isto, afinal?»

A pergunta permanece no ar mais tempo do que a própria linha do horizonte.

Quando a altura se torna um vício

Ao pé do Burj Khalifa, o pescoço desiste antes dos olhos.

Olha-se para cima, semicerram-se os olhos, talvez se dê um passo atrás, mas o edifício continua a elevar-se, como se desafiasse o céu. As pessoas ficam boquiabertas, levantam os telemóveis e tiram selfies. Por instantes, sentimo-nos pequenos e, ao mesmo tempo, estranhamente maravilhados, como uma criança a olhar para um foguetão.

Depois, reparamos no corredor meio vazio do centro comercial. Nos pisos de escritórios às escuras. Nos funcionários da limpeza que se movem como fantasmas.

É aí que o encanto começa a vacilar.

A futura torre de 1km na Arábia Saudita é apresentada como o próximo salto nesta corrida.

Uma estrutura tão alta que seria quase como colocar a Torre Eiffel em cima do Burj Khalifa: uma demonstração vertical de ostentação, visível de aviões e em apresentações PowerPoint. O custo? Milhares de milhões, valores tão grandes que parecem irreais, envolvidos em slogans sobre «vida urbana preparada para o futuro» e «redefinir o potencial humano».

Nas imagens promocionais, a cidade é limpa, jovem e luminosa. Não há ondas de calor. Não há trânsito. Não há trabalhadores suspensos em andaimes às 2 da manhã porque o calendário atrasou e o prémio de alguém depende de uma data assinalada a vermelho.

Estas torres recordistas tornaram-se a Fórmula 1 do ego nacional.

São tecnicamente impressionantes, sem dúvida, mas estranhas do ponto de vista funcional: excessivamente complexas, pouco utilizadas e mais símbolo do que solução. As cidades continuam a precisar de hospitais, proteção contra cheias, habitação acessível e transportes públicos decentes. Só que essas coisas não costumam chegar às capas brilhantes das revistas.

Os ciclos de construção de arranha-céus «mega-altos» surgem frequentemente no fim dos ciclos económicos, pouco antes de a realidade se impor. Basta pensar nas cidades-fantasma da China ou nos condomínios de luxo meio vazios das grandes capitais. Estes edifícios repetem a mesma mensagem: escolhemos o espetáculo em vez do bom senso.

Uma torre de 1km não resolve uma cidade.

Apenas eterniza uma obsessão em betão e vidro.

Como olhar para lá das imagens promocionais

Há um gesto simples que qualquer pessoa pode fazer quando surgir o próximo anúncio do «edifício mais alto do mundo».

Ignore os fogos de artifício. Ignore o espetáculo de drones. Ignore as imagens de helicópteros geradas por computador a circular em torno de uma torre que ainda nem existe.

Em vez disso, faça uma pergunta simples, mas incisiva: que problema resolve realmente isto?

Se a resposta honesta for «prestígio nacional», «isca turística para o Instagram» ou «manter o dinheiro da construção a circular durante mais algum tempo», já terá percebido mais do que o comunicado de imprensa quer revelar.

Os direitos de ostentação urbana dão excelentes manchetes. Raramente produzem excelentes cidades.

Quando se analisam projetos anteriores de torres super-altas, torna-se difícil não reconhecer o padrão.

Muitas torres de luxo em Londres, Nova Iorque ou Dubai converteram-se em cofres de investimento no céu: luzes apagadas à noite, apartamentos pertencentes a empresas-fantasma e quase nenhuma comunidade real.

A uma escala mais humana, basta perguntar aos residentes locais de que forma estes megaprojetos alteraram o seu quotidiano.

Ouvirá relatos de vendedores ambulantes proibidos, famílias deslocadas, rendas a subir ou pó das obras a invadir varandas.

Num plano mais técnico, o consumo de energia e de água dispara.

Manter fresca uma agulha de vidro com temperaturas de 45°C não é propriamente amigo do clima, independentemente do que prometa o folheto sobre sustentabilidade.

Há ainda outro atalho mental que ajuda a atravessar a propaganda: seguir o rasto da manutenção.

Quem irá pagar para manter elevadores, sistemas de refrigeração, sistemas contra incêndios e fachadas envidraçadas seguros e operacionais daqui a 20, 40 ou 60 anos?

Alturas recordistas implicam complexidade recordista.

Num laboratório de investigação, isso pode ser aceitável.

Mas torna-se uma bomba-relógio quando os orçamentos futuros das cidades já estão pressionados pelo envelhecimento das infraestruturas e pelos custos de adaptação climática.

Como me disse um urbanista enquanto tomávamos café:

«Todos querem cortar a fita de inauguração de um marco urbano. Ninguém quer pagar a fatura de manutenção durante 50 anos.»

  • Veja o que o projeto vem substituir: existia uma comunidade, uma zona húmida ou um bairro operário?
  • Confirme quem beneficia em primeiro lugar: compradores de luxo, investidores estrangeiros ou as pessoas que já vivem ali?
  • Pergunte como se integra à escala urbana: é um troféu isolado ou faz parte de um tecido urbano coerente e habitável?

A alternativa discreta a um pico de ego de 1km

Há outra forma de interpretar a linha do horizonte: não como uma tabela classificativa, mas como um indicador de saúde.

Uma cidade cheia de projetos de vaidade assemelha-se muitas vezes a uma publicação de Instagram com filtros a mais. É impressionante, sim, mas também um pouco artificial e vazia.

O oposto é menos vistoso, mas muito mais radical.

Edifícios de altura média que se mantêm frescos sem faturas de energia absurdas. Ruas sombreadas onde se consegue realmente caminhar à tarde. Parques em vez de gigantescos centros comerciais sobre plataformas elevadas.

Parece quase aborrecido. É precisamente por isso que funciona.

Os urbanistas centrados em cidades à escala humana falam de «vida a 15 minutos», e não de espetáculo vertical.

Mercearias, escola, trabalho e parques: tudo acessível rapidamente sem automóvel nem elevador panorâmico. Paris, Barcelona e até algumas zonas de Riade avançam discretamente nessa direção, com ciclovias, passeios sombreados e espaços públicos melhorados.

Essa mudança não gera manchetes globais como «A torre mais alta do mundo».

Mas torna a vida quotidiana menos desgastante.

Todos já vivemos aquele momento em que fotografamos uma linha do horizonte e passamos o resto da viagem presos no trânsito ou à procura de um pedaço de sombra.

É nesse fosso entre o postal e a realidade que a construção de uma cidade falha ou triunfa verdadeiramente.

Esta obsessão pela altura também tem um custo psicológico.

Quando tudo é apresentado como «icónico», nada parece especial.

Os residentes podem começar a sentir-se figurantes num cenário de cinema criado para investidores estrangeiros, consultores e imagens captadas por drones.

Um arquiteto saudita, falando sem se identificar, disse-me:

«O projeto dos meus sonhos não é uma torre de 1km. É um bairro onde as crianças possam brincar na rua às 16 horas de agosto sem correrem o risco de uma insolação.»

Eis a lista pouco glamorosa com que a maioria das pessoas se preocupa em segredo:

  • Consigo pagar para viver perto do local onde trabalho?
  • Os meus filhos terão espaços seguros para brincar e caminhar?
  • O calor de verão significa que fico preso dentro de casa durante meses?
  • Os transportes públicos são utilizáveis ou apenas uma frase de relações públicas?
  • A cidade parece construída para os residentes, e não apenas para sessões fotográficas?

A proposta torre de 1km da Arábia Saudita, tal como o Burj Khalifa e a Shanghai Tower antes dela, expõe algo desconfortável sobre a nossa época.

Elogiamos a «inovação», enquanto repetimos os mesmos grandes gestos que já se revelaram vazios noutros lugares. Falamos de sustentabilidade ao mesmo tempo que perseguimos recordes de altura que fixam enormes custos de materiais e energia durante décadas.

Não é que os edifícios altos sejam maus.

O problema é que as torres construídas como troféus raramente servem as pessoas que vivem à sua sombra.

Os projetos urbanos mais radicais dos próximos 30 anos provavelmente não serão os mais altos.

Serão os que mantêm as cidades habitáveis em verões de 50°C, tornam o arrendamento menos pesado e transformam terrenos vazios em praças sombreadas.

Sejamos honestos: ninguém acorda a pensar «gostava que a minha cidade tivesse uma ponta de vidro ligeiramente mais alta».

Acorda a pensar na renda, no tempo de deslocação, no calor, no ruído, na segurança e num pouco de dignidade.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Vaidade vs. utilidade As torres super-altas servem frequentemente mais o prestígio e a especulação do que necessidades reais. Ajuda os leitores a ver para lá da propaganda brilhante sobre o «edifício mais alto do mundo».
Custos ocultos A manutenção, o consumo energético e a perturbação social raramente são referidos nos comunicados de imprensa. Ajuda a questionar quem paga realmente estes megaprojetos ao longo do tempo.
Cidades à escala humana Bairros de altura média, sombreados e percorríveis a pé proporcionam discretamente uma vida quotidiana melhor. Apresenta uma visão mais próxima e realista daquilo que poderão ser as «cidades do futuro».

Neste momento

Miguel Ângelo Carvalho

Miguel Ângelo Carvalho é especialista em materiais de construção e revestimentos cerâmicos, com mais de 15 anos de experiência no aconselhamento técnico para projetos residenciais e comerciais. Interessado em soluções duráveis, eficientes e esteticamente distintivas, acompanha de perto as tendências em tijolos, telhas, pavimentos e revestimentos para arquitetura e reabilitação.

Perguntas frequentes

É realmente viável uma torre de 1km na Arábia Saudita?

Tecnicamente, sim: a engenharia permite-o. Porém, os prazos, os orçamentos e a vontade política são muito menos certos do que sugerem as imagens promocionais polidas.

Porque continuam os países a competir pelo edifício mais alto?

A altura transmite uma mensagem rápida e simples: riqueza, poder e modernidade; é uma forma de afirmação geopolítica em aço e vidro.

Estes projetos não são positivos para o emprego?

Geram trabalho na construção, mas esses empregos são temporários, frequentemente mal pagos, e nem sempre se traduzem em benefícios locais duradouros.

As torres super-altas são ambientalmente sustentáveis?

Podem incluir tecnologia ecológica, mas a enorme quantidade de materiais e a necessidade de refrigeração dificultam uma sustentabilidade verdadeira.

O que devemos procurar em vez de recordes de altura?

Procure cidades que invistam em sombra, transportes públicos, habitação acessível e infraestruturas resilientes que melhorem efetivamente a vida diária.

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