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Ferramentas compostas de Xigou revelam tecnologia de há 160.000 anos na Ásia Oriental

Pessoa a escavar cuidadosamente um sítio arqueológico com ferramentas e desenhos de artefactos à volta.
Neste artigo
  1. Ferramentas antigas, perguntas actuais
  2. Para que eram realmente usadas as ferramentas de Xigou
  3. Quem fabricou realmente estas ferramentas?
  4. Porque é que isto muda a história da pré-história asiática
  5. Como determinam os cientistas a função de uma ferramenta
  6. Termos essenciais que os leitores costumam perguntar
  7. O que isto significa para futuras escavações na Ásia
  8. Uma experiência mental: viver com uma ferramenta encabada

Descoberto perto do rio Amarelo, o conjunto parece modesto à primeira vista. Contudo, por detrás das lascas de sílex e quartzito encontra-se um salto tecnológico que ninguém esperava nesta zona da Ásia da Idade do Gelo: as mais antigas ferramentas compostas conhecidas na Ásia Oriental, algumas datadas de há 160.000 anos, e um mistério sobre quem foram os humanos antigos que as produziram.

Ferramentas antigas, perguntas actuais

O sítio de Xigou, na província chinesa de Henan, foi escavado entre 2019 e 2021. Os investigadores recuperaram mais de 2.600 artefactos de pedra incorporados em sedimentos antigos.

Muitos destes objectos cabem na ponta de um dedo e medem frequentemente menos de 50 milímetros. No entanto, a observação microscópica revela um nível inesperado de planeamento e competência técnica.

O desgaste microscópico nas arestas de pedra mostra que algumas peças foram fixadas a hastes ou cabos de madeira e usadas depois num movimento de torção e perfuração.

A união entre pedra e madeira transforma uma simples aresta de corte numa ferramenta composta. O estudo que apresenta estas descobertas, publicado na Nature Communications em 27 de Janeiro, defende que Xigou conserva a mais antiga evidência inequívoca desta tecnologia na Ásia Oriental.

As ferramentas compostas representam um avanço importante na engenhosidade humana. Ao prender uma pedra afiada a um cabo, aumenta-se o alcance, a alavancagem e a força. Isto permite cortes mais profundos, furos mais limpos e um trabalho muito mais eficiente com o mesmo esforço.

Para que eram realmente usadas as ferramentas de Xigou

A análise microscópica das arestas cortantes revelou polimento e estrias característicos. Estes vestígios apontam para contactos repetidos com materiais vegetais macios, sobretudo madeira e canas.

  • Perfurar ou abrir furos em madeira ou caules de cana
  • Modelar hastes, cabos ou armações de madeira
  • Trabalhar fibras vegetais para atar ou tecer
  • Possivelmente tratar peles de animais, embora os indícios sejam mais escassos

Os investigadores distinguiram vários tipos de ferramentas, entre os quais perfuradores, buris e peças bifaciais. Algumas pontas apresentam desgaste em espiral, semelhante a pequenos saca-rolhas, o que é compatível com uma técnica de perfuração rotativa accionada à mão.

Não se trata de pedras rudimentares de “partir e apanhar”; são instrumentos adaptados a funções específicas, cada um integrado numa sequência de fabrico com várias etapas.

A produção de uma destas ferramentas implicava diversas fases: escolher a matéria-prima adequada, dar forma à pedra, preparar um cabo de madeira, unir os dois elementos - provavelmente com amarras ou adesivos de origem vegetal - e, por fim, utilizar e conservar o utensílio.

Uma cronologia que recua 160.000 anos

Os sedimentos de Xigou abrangem um extenso intervalo, entre cerca de 160.000 e 72.000 anos atrás. Este período inclui fases frias e mais quentes do Plistocénico, quando os ciclos glaciares remodelaram as paisagens de toda a Eurásia.

Nenhum osso humano ou resto animal foi associado de forma segura às camadas que continham as ferramentas. As pessoas que aqui trabalharam caçavam e recolhiam alimentos, mas, sem resíduos de fogueiras ou esqueletos com marcas de corte, o seu quotidiano continua pouco claro.

Ainda assim, o conjunto de utensílios sugere versatilidade. Segundo a paleoantropóloga Shi-Xia Yang, estes artefactos indicam comunidades capazes de ajustar a sua tecnologia às alterações climáticas e aos recursos locais, em vez de dependerem de uma única forma rígida de actuar.

Quem fabricou realmente estas ferramentas?

É neste ponto que a narrativa passa da técnica para o trabalho de detective. Crê-se que várias espécies de hominíneos tenham vivido na Ásia Oriental durante o período de ocupação de Xigou.

Espécie candidata Razão por que é considerada
Denisovanos Conhecidos por vestígios genéticos na Ásia; provavelmente muito disseminados, mas pouco documentados no registo fóssil.
Homo longi Espécie proposta com base em crânios do nordeste da China; poderá ter estado presente na região mais ampla.
Homo juluensis Baseado em fósseis fragmentários; representa outra possível população arcaica na China.
Homo sapiens A nossa própria espécie, presente na Ásia Oriental há pelo menos 80.000–100.000 anos em alguns sítios.

Sem ADN ou esqueletos associados, é por agora impossível atribuir as ferramentas a uma única espécie. O coautor Ben Marwick salienta que apenas futuras descobertas - fósseis directamente ligados a ferramentas semelhantes ou material genético antigo proveniente do sítio - poderão resolver a questão.

Neste momento, o conjunto de ferramentas de Xigou é como uma carta assinada sem nome no final: a caligrafia é clara, mas o autor não.

Porque é que isto muda a história da pré-história asiática

Durante décadas, os arqueólogos traçaram mentalmente uma fronteira chamada Linha de Movius, que se estendia aproximadamente do norte da Índia ao Sudeste Asiático. A oeste desta linha, África e a Eurásia ocidental eram vistas como centros de inovação: grandes machados de mão, tradições líticas elaboradas e, mais tarde, armas compostas complexas.

Em contraste, os primeiros sítios a leste da linha continham muitas vezes lascas e núcleos de pedra mais simples. Daí nasceu a ideia persistente de que os grupos humanos da Ásia Oriental eram “tecnologicamente conservadores” durante grande parte do Plistocénico.

As evidências de Xigou contrariam fortemente essa noção. Embora pequenas e visualmente discretas, estas ferramentas revelam, pela forma como foram fabricadas e utilizadas, reflexão, antecipação e compreensão da vantagem mecânica.

O antropólogo John Shea defende há muito que ferramentas de aspecto simples não significam mentes simples, e Xigou oferece agora um exemplo claro disso.

A arqueóloga Anne Ford observa que a encabagem - o termo usado para designar a fixação de uma ferramenta a um cabo - exige planeamento avançado. É preciso imaginar como será usado o objecto acabado, preparar cada componente e montá-los na sequência correcta. Este ensaio mental sugere capacidades cognitivas mais próximas das observadas nos primeiros humanos modernos, mesmo que os fabricantes pertencessem a outra espécie.

Como determinam os cientistas a função de uma ferramenta

Compreender um conjunto de ferramentas com 160.000 anos exige mais do que observar as suas formas. Os especialistas em “análise de desgaste de uso” recriam tarefas antigas com réplicas e comparam depois os riscos microscópicos e o polimento obtidos com os existentes nas peças arqueológicas.

Em Xigou, as experiências realizadas com perfuradores de pedra e materiais de madeira ou cana produziram padrões de desgaste que correspondem aos dos artefactos antigos. Isto dá aos investigadores confiança de que não estão apenas a especular sobre a função dos objectos.

Outro método fundamental é a análise da “chaîne opératoire” - expressão francesa que descreve a sequência completa de acções, desde a matéria-prima até ao objecto descartado. Ao identificar cada etapa, os arqueólogos conseguem avaliar o grau de planeamento e perícia exigido por uma tecnologia.

O que isto revela sobre as primeiras mentes humanas

As ferramentas compostas situam-se no cruzamento de várias capacidades: pensamento abstracto, controlo motor fino e aprendizagem social.

  • É necessário visualizar uma ferramenta que ainda não existe.
  • É preciso coordenar materiais diferentes - pedra, madeira, amarras e, possivelmente, cola.
  • É provável que as etapas fossem aprendidas observando outras pessoas e praticando repetidamente.

Isto sugere que os habitantes de Xigou transmitiam conhecimentos entre gerações. Mentores e aprendizes poderão ter-se sentado junto a uma fogueira, moldando em conjunto pontas de pedra e hastes de madeira, transmitindo técnicas para acertar no ângulo ou apertar uma amarra de modo a que não escorregasse.

Termos essenciais que os leitores costumam perguntar

O que significa “hominíneo”?

O termo “hominíneo” abrange os humanos e os nossos parentes extintos mais próximos após a separação da linhagem dos chimpanzés. Inclui espécies como os neandertais, os denisovanos e formas mais antigas, como o Homo erectus. Todos os hominíneos eram bípedes e partilhavam determinados traços anatómicos, mas variavam muito quanto ao tamanho do cérebro, comportamento e cultura.

O que é considerado uma “espécie” neste contexto?

Nos animais actuais, uma espécie é frequentemente definida como um grupo capaz de se reproduzir entre si e gerar descendência fértil. No caso dos fósseis, os investigadores recorrem às formas dos ossos, a medições cranianas e, quando disponível, ao ADN antigo. A fronteira entre espécies pode ser pouco nítida, sobretudo quando diferentes hominíneos se cruzaram, como demonstram os genes denisovanos e neandertais presentes nos humanos modernos.

O que isto significa para futuras escavações na Ásia

O conjunto de ferramentas de Xigou sugere que outros sítios da Ásia Oriental poderão ter sido subvalorizados. Colecções de pedras pequenas e aparentemente banais, guardadas em gavetas de museus, podem esconder tecnologias igualmente complexas que nunca foram examinadas ao microscópio.

É provável que os próximos projectos dêem maior atenção aos estudos de microdesgaste, à análise de resíduos para detectar vestígios de madeira, fibras vegetais ou sangue, e à procura cuidadosa de componentes de madeira preservados em sedimentos bem selados.

Cresce também o interesse pela forma como estas tecnologias antigas poderão ter moldado as paisagens. As ferramentas compostas empregadas para perfurar e cortar madeira podem ter sido essenciais para construir abrigos, escavar raízes comestíveis ou fabricar equipamento de caça, alterando subtilmente os ecossistemas muito antes do aparecimento da agricultura.

Uma experiência mental: viver com uma ferramenta encabada

Imagine dois grupos de caçadores há 150.000 anos, ambos confrontados com uma vaga de frio e manadas de caça cada vez menores. Um dos grupos dispõe apenas de lascas de pedra sem cabo; o outro possui perfuradores e ferramentas de corte encabados.

O segundo grupo consegue escavar recipientes de madeira, reparar mais depressa as hastes das lanças e produzir amarras mais firmes para armadilhas. Com o tempo, estas pequenas eficiências podem traduzir-se em melhores taxas de sobrevivência das crianças e em menos ferimentos nos adultos.

Numa perspectiva evolutiva, essa vantagem pode ser importante. Sugere que até mudanças tecnológicas aparentemente modestas - como acrescentar um cabo de madeira - podem repercutir-se no comportamento, na sobrevivência e, por fim, na história genética de uma região.

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Miguel Ângelo Carvalho

Miguel Ângelo Carvalho é especialista em materiais de construção e revestimentos cerâmicos, com mais de 15 anos de experiência no aconselhamento técnico para projetos residenciais e comerciais. Interessado em soluções duráveis, eficientes e esteticamente distintivas, acompanha de perto as tendências em tijolos, telhas, pavimentos e revestimentos para arquitetura e reabilitação.

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